Há uma distinção importante no Edifício Ibá, no Jardim Paulista, em São Paulo: a madeira não é revestimento, mas sim estrutura. Projetado pelo estúdio bg, o edifício é o primeiro residencial vertical da cidade a adotar um sistema híbrido que combina concreto armado e madeira engenheirada – MLC e CLT – como solução construtiva integrada, e não como recurso estético aplicado sobre a obra.

O Edifício Ibá, no Jardim Paulista, é o primeiro residencial vertical de São Paulo a adotar um sistema estrutural híbrido que combina concreto armado e madeira engenheirada — MLC e CLT — como solução construtiva integrada (Imagens: Blackhaus Studio)

A lógica do sistema parte da especificidade de cada material. O núcleo rígido em concreto concentra circulação vertical, estabilidade global e infraestrutura – os elementos que exigem maior rigidez e resistência. As lajes e vigas em madeira engenheirada assumem o restante da estrutura, reduzindo significativamente o peso da edificação. Essa divisão não é apenas técnica: ela é o que torna o Ibá viável como argumento para o mercado imobiliário brasileiro.

Ele é um edifício híbrido. A gente tem um core central, que é a parte de circulação vertical da escada de incêndio e dos elevadores, todo em concreto, e as lajes de madeira são apoiadas nessa estrutura. A gente junta dois conceitos e cria o próximo passo da construção civil”, explica Murilo Gabriele, sócio-fundador do estúdio bg, ao lado de Antonio Brandão.

Dispositivos de proteção solar garantem conforto térmico ao longo do ano sem comprometer a relação dos ambientes com a vegetação existente no entorno do Jardim Paulista (Imagem: Blackhaus Studio)

A madeira industrializada acelera a montagem, reduz resíduos no canteiro, diminui interferências no entorno urbano e oferece elevado controle de qualidade dimensional – vantagens que respondem tanto a demandas ambientais quanto a exigências operacionais de obra.

Existe um consumidor ávido por boa arquitetura e ambientalmente mais correta, mas que não encontra oferta no mercado”, afirma Hélio Olga, sócio fundador da ITA Engenharia em Madeira, que participa da usinagem e da montagem da estrutura de madeira. Ele também destaca os benefícios ambientais do sistema: “Além disso, a madeira só precisa de água e energia solar para ser produzida, e tem como efeito ambiental o sequestro de carbono da atmosfera. Portanto, só tem pontos positivos”, ressalta.

Com sete pavimentos, o edifício organiza seus apartamentos a partir de plantas abertas e ventilação cruzada, com as áreas sociais orientadas para as melhores condições de insolação. Dispositivos de proteção solar garantem conforto térmico ao longo do ano sem comprometer a relação dos ambientes com a vegetação existente no entorno. A arquitetura, nesse sentido, é consequência direta da estrutura: a leveza do sistema híbrido libera o projeto de sobrecargas que, em uma obra convencional, condicionariam as escolhas de planta e de aberturas.

1 / 5Com sete pavimentos, o Ibá organiza seus apartamentos a partir de plantas abertas e ventilação cruzada, com as áreas sociais orientadas para as melhores condições de insolação (Imagem: Blackhaus Studio)

O paisagismo, desenvolvido por Rodrigo Oliveira, distribui jardins e floreiras pelos pavimentos do edifício com a intenção de que o verde percorra a edificação de forma contínua, e não pontual. A solução expande a área verde dentro da ocupação disponível, contribui para a formação de um microclima e integra irrigação por gotejamento e uso planejado da água – premissas de desempenho ambiental que, combinadas à estrutura híbrida do Ibá, reforçam a coerência entre partido arquitetônico e responsabilidade ecológica.

O paisagismo de Rodrigo Oliveira distribui jardins e floreiras pelos pavimentos com a intenção de que o verde percorra a edificação de forma contínua — contribuindo para a formação de um microclima com irrigação por gotejamento e uso planejado da água (Imagens: Blackhaus Studio)

A profundidade das escolhas construtivas do Ibá motivou uma conversa mais longa com Murilo Gabriele. Em três respostas, ele discorre sobre os argumentos ambientais, sociais e econômicos que tornam a madeira engenheirada relevante para além da substituição de um material por outro; sobre o que o escritório espera demonstrar — e documentar — com esse projeto pioneiro; e sobre o funcionamento técnico da estrutura híbrida, detalhando a relação entre o núcleo de concreto e os pavimentos em madeira, as conexões metálicas de interface entre os dois sistemas, a lógica de compatibilização das instalações e a fachada em GRC com caixilhos integrados. A entrevista está reproduzida na íntegra a seguir:

Daniela Bueno Elston – Revista PROJETO A madeira engenheirada ainda carrega no Brasil uma associação quase exclusiva ao revestimento. O que foi necessário demonstrar – para o mercado, para o incorporador, para a aprovação – para que ela entrasse no Ibá como sistema estrutural?

Murilo Gabriele – estúdio bg Um dos pontos mais importantes da incorporação da madeira como elemento estrutural é a resposta que nós, como sociedade, podemos dar aos desafios ambientais que enfrentamos. Estamos falando de um material renovável, capaz de armazenar carbono e que, quando utilizado de forma responsável e em escala, pode contribuir para a redução dos impactos ambientais da construção e para uma maior conscientização sobre a forma como construímos

Durante décadas, a construção civil se consolidou como uma das atividades de maior impacto ambiental e, apesar dos avanços tecnológicos em diversas áreas, ainda construímos de maneira muito semelhante ao que fazíamos há décadas. Precisamos repensar não apenas os materiais, mas todo o processo de construção.

E essa transformação não acontece somente por uma questão ambiental. Existem mudanças sociais e econômicas que também estão pressionando o setor. A mão de obra, por exemplo, tornou-se um dos grandes desafios da construção. Há cada vez menos pessoas interessadas em trabalhos pesados e artesanais no canteiro, ao mesmo tempo em que cresce a necessidade de profissionais mais especializados.

Nesse contexto, a industrialização passa a ser fundamental. Quanto mais componentes do edifício puderem ser produzidos em ambientes controlados, com precisão, planejamento e menor desperdício, mais eficiente tende a ser todo o processo. A madeira engenheirada se insere muito bem nessa lógica porque exige projeto, coordenação e fabricação antes de chegar ao canteiro. De certa forma, ela nos obriga a pensar a construção como uma indústria.

Há ainda uma dimensão que vai além da eficiência e da sustentabilidade: a qualidade dos espaços que produzimos. A presença de materiais naturais, como a madeira, aproxima a arquitetura das pessoas e da natureza. Existe uma relação direta com conceitos de biofilia e com a percepção de conforto e bem-estar.

Por isso, vejo a madeira não apenas como a substituição de um material estrutural por outro. Ela representa uma oportunidade de rever toda a cadeia da construção – desde a origem dos materiais e a forma de projetar até a fabricação, a montagem e, principalmente, a qualidade dos espaços em que as pessoas irão viver.

DBE O Ibá é o primeiro edifício residencial vertical de São Paulo nesse sistema. O que vocês esperam que ele demonstre – e para quem?

MG Estamos vivendo um período de transição, embora ainda se fale pouco sobre uma mudança mais profunda na forma como utilizamos os recursos na construção civil. Existe um movimento nesse sentido, impulsionado principalmente por alguns arquitetos, engenheiros e empresas, mas que ainda representa uma parcela muito específica e restrita do setor no Brasil.

Nosso objetivo é contribuir para esse processo através de um trabalho consistente, que possa demonstrar, na prática, que é possível construir de outra maneira. Vemos hoje diversos edifícios em madeira engenheirada sendo realizados com sucesso em outros países, mas entendemos que simplesmente reproduzir esses modelos não é suficiente. Precisamos desenvolver nossas próprias soluções, considerando a realidade brasileira e, principalmente, trabalhando junto a fornecedores e indústrias nacionais extremamente capacitados.

Também entendemos que estamos dentro de um processo de aprendizado. Certamente teremos erros e acertos ao longo do caminho, e isso faz parte de trabalhar com um sistema construtivo que ainda está se consolidando no país. O mais importante é transformar essa experiência em conhecimento.

Para além de realizar um único edifício, queremos entender o processo, documentá-lo e aprender com ele para que as soluções que funcionarem possam ser aprimoradas e replicadas de maneira cada vez mais eficiente em projetos futuros. É assim que acreditamos que uma experiência pontual pode começar a contribuir para uma transformação mais ampla da construção.

DBE Como funciona na prática a transferência de cargas entre a estrutura de madeira e o núcleo de concreto – quais são os nós de conexão entre os dois sistemas, como foram resolvidos os encontros entre materiais com comportamentos estruturais tão distintos, e quais foram os principais desafios de cálculo e compatibilização?

MG A estrutura híbrida é uma característica importante de muitos edifícios em madeira engenheirada. No nosso caso, essa relação entre concreto e madeira começa desde a fundação. O núcleo rígido em concreto nasce na infraestrutura e percorre verticalmente todo o edifício, funcionando como uma espécie de espinha dorsal estrutural.

Esse core concentra as circulações verticais e, estruturalmente, é responsável por uma parcela fundamental da estabilidade global do edifício, principalmente em relação aos esforços horizontais. A partir dele, a estrutura de madeira se desenvolve nos pavimentos, formando lajes, vigas e pilares.

A conexão entre esses dois sistemas é um dos pontos mais importantes do projeto. Foram desenvolvidas ancoragens e conexões metálicas que fazem a interface entre o núcleo de concreto e os elementos de madeira, permitindo que trabalhem de maneira conjunta e garantindo rigidez, estabilidade e transferência adequada dos esforços.

Por isso, quando falamos em estrutura híbrida, não estamos falando simplesmente de utilizar concreto em uma parte do edifício e madeira em outra. Existe uma relação estrutural entre os materiais. Cada um é utilizado onde apresenta características mais adequadas: o concreto forma a base e o núcleo rígido do edifício, enquanto a madeira engenheirada permite desenvolver os pavimentos com uma estrutura mais leve, precisa e altamente industrializada.

Essa redução de peso também tem consequências para todo o sistema estrutural. Uma superestrutura mais leve significa menores cargas chegando às fundações, criando uma relação importante entre as decisões tomadas acima e o dimensionamento da infraestrutura.

Detalhes estruturais

A compatibilização dos projetos se torna, portanto, fundamental e também mais complexa. Em uma construção industrializada, cada peça deixa de ser apenas um elemento executado no canteiro e passa a ser um componente previamente projetado, fabricado e preparado para se conectar aos demais. Muitas decisões que tradicionalmente poderiam ser resolvidas durante a obra precisam ser antecipadas ainda na fase de projeto.

Um exemplo é a passagem das instalações. Procuramos evitar ao máximo perfurações e interferências desnecessárias na estrutura de madeira. Para os dutos de ar-condicionado, desenvolvemos junto ao projeto estrutural afastamentos entre determinadas placas de laje, criando faixas específicas para a passagem das instalações por cima das vigas sem comprometer os elementos estruturais.

A mesma lógica de industrialização foi aplicada à fachada. Projetada em GRC, ela é responsável pela vedação do edifício e é composta por elementos pré-fabricados, posteriormente içados e fixados à estrutura durante a montagem. Os caixilhos são incorporados aos próprios módulos de fachada, permitindo que diferentes etapas da construção sejam cada vez mais integradas.

Até algumas condicionantes do terreno foram tratadas a partir dessa lógica de eficiência. Como estamos trabalhando em um lote relativamente pequeno, incorporamos um elevador de veículos para otimizar a área destinada às vagas de garagem.

No final, o edifício precisa ser entendido como um único sistema. Fundação, core de concreto, estrutura de madeira, conexões metálicas, instalações, fachada e caixilhos possuem uma relação direta entre si. Essa necessidade de antecipar decisões e coordenar diferentes componentes talvez seja uma das principais mudanças de mentalidade quando passamos de uma construção convencional para uma construção industrializada. (Por Daniela Bueno Elston)

estúdio bg
Fundado em 2014 pelos arquitetos e urbanistas Antonio Brandão e Murilo Gabriele (ambos graduados pela FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado, 2013), o estúdio bg desenvolve projetos que investigam novas formas de construir, conciliando inovação tecnológica e racionalização construtiva. O escritório atua em diferentes escalas, com foco em sistemas industrializados, construção em madeira e arquitetura de baixo impacto ambiental.

Plantas
Corte longitudinal

Fonte: Revista Projeto

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