A história da tentativa de transição de uma indústria de materiais de construção frequentemente tóxica e perigosa para opções saudáveis foi impulsionada por um grupo seleto de defensores ferrenhos. No entanto, ela enfrenta a resistência dos próprios construtores, que veem a mudança como um custo adicional e atrasam os avanços a um ritmo alarmante.

Além disso, a oferta de produtos dos grandes fabricantes é ditada pelo volume e escala que as construtoras conseguem entregar, o que muitas vezes prioriza o baixo custo em detrimento da qualidade.

Contudo, um material sustentável que está em evidência é a madeira engenheirada (conhecida internacionalmente como mass timber).

Introduzida inicialmente no mercado europeu na década de 1990, ela se apresenta sob a forma de madeira lamelada colada (MLC) e madeira laminada cruzada (CLT) como uma alternativa de baixo emissão de carbono frente ao aço e ao concreto.

À medida que financiamentos e incentivos se alinham cada vez mais aos objetivos de ESG, esse produto estrutural ganha popularidade. E, com essa aceitação, novos programas, serviços e ferramentas estão surgindo no setor.

A seleção da madeira engenheirada

A madeira sempre foi uma parte fundamental da construção de moradias nos Estados Unidos. Ben Christensen, CEO do marketplace do setor madeireiro Cambium, vivenciou isso de perto, pois cresceu em meio a essa indústria na zona rural do Novo México.

“Não tínhamos aquecimento central, então cortávamos nossa própria lenha”, conta. “Como eu era filho único, minhas melhores amigas eram as árvores. O trabalho da minha vida é lidar com as mudanças climáticas.

Atuei em laboratórios nacionais, inserindo a tomada de decisão baseada em dados na nossa rotina. Além disso, na Escola de Silvicultura de Yale, trabalhei com políticas federais e acompanhei a expansão do setor, que atingiu a marca de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5,1 trilhões) globalmente.”

Essa bagagem o impulsionou a fundar a Cambium, descrita por ele como uma empresa de tecnologia que traz sustentabilidade ao espaço florestal em larga escala, concentrando-se nos 426 milhões de toneladas de madeira que são desperdiçados anualmente no mercado americano.

“Esse insumo poderia ser utilizado para substituir mais da metade da demanda atual”, afirma. “Precisamos de um volume gigantesco, mas hoje reaproveitamos menos de 5% porque falta coordenação. Atualmente, não existem marcas consolidadas, tampouco uma jornada do cliente estruturada.”

Para mudar esse cenário, a startup atua em todo o país para recolher árvores reaproveitadas — uma iniciativa que espera transformar o simples fornecimento da matéria-prima em compras feitas nas fontes corretas. Nesse processo, a companhia utiliza tecnologia para rastrear um componente de precificação real que seja escalável e capaz de oferecer descontos no atacado com o tempo.

A plataforma também está envolvida no ambiente regulatório para promover o acesso e a reutilização de florestas não manejadas, em parceria com proprietários privados, companhias madeireiras, prefeituras e parques.

“Hoje, quando uma árvore cai, não sabemos onde ela vai parar”, acrescenta Christensen. “Existem dezenas de etapas até chegar ao consumidor final, com muita ineficiência na cadeia de suprimentos. Se conseguirmos inserir dados sob tudo isso, poderemos resolver o problema e gerar eficiência. Ao fomentar a demanda, conseguimos obter essas informações.”

Esses dados incluem informações sobre origem, processamento, formação de preços e condições ambientais. A plataforma foca no estágio inicial (a fonte) para fornecer um insumo que chegue ao canteiro de forma ecologicamente correta.

A estratégia tem rendido frutos: a receita da corporação quintuplicou no ano passado e continua em forte ritmo de expansão.

A tecnologia é uma peça fundamental desse crescimento. A Cambium está introduzindo Inteligência Artificial (IA) em uma indústria essencialmente verbal, onde os contratos são frequentemente fechados por telefone ou com um aperto de mão, mesmo em negociações milionárias. A plataforma traz a IA para interagir com uma camada digital de maneira fluida, permitindo que os usuários preencham a burocracia por meio de uma simples conversa.

A startup também colabora com outros participantes do ecossistema do setor para viabilizar um número maior de empreendimentos baseados nesse sistema construtivo.

Colocando a teoria em prática

A Mosaic Timber, com sede na Califórnia, está fabricando painéis leves, resistentes ao fogo e capazes de sequestrar carbono a partir de árvores de pequeno diâmetro obtidas localmente, destinados a kits de casas pré-fabricadas ou novos projetos residenciais.

A corporação já reconstruiu diversas habitações danificadas por incêndios florestais, empregando toras menores, que são um ativo comum, mas subutilizado.

Outra novidade tech no mercado é a Generate.design, focada na automação do processo de arquitetura e orçamentação da madeira em massa. Seu sistema ajuda o setor a se adaptar a esses novos processos de construção, que apresentam características únicas em comparação aos métodos convencionais.

“Muitos desenvolvimentos morrem durante a fase de pré-construção”, relata o cofundador e CTO da companhia, Bobby Uhlenbrock. “Nossa ferramenta ajuda as equipes que estão explorando essa alternativa a obter uma lista de materiais em questão de dias, poupando semanas de trabalho.”

A transição para a madeira engenheirada em um pipeline é uma dinâmica bastante diferente e exige a configuração adequada. A matéria-prima pode encarecer o custo inicial, mas há uma economia de tempo considerável, pois a montagem no canteiro de obras é muito mais rápida, resultando também em forte redução nas despesas com mão de obra.

“Com insumos emergentes, é difícil estimar os custos com precisão”, observa Uhlenbrock. “Normalmente, os executivos de engenharia acabam incluindo um orçamento de contingência enorme como uma espécie de ‘taxa de incerteza’, que acaba se multiplicando ao longo das etapas.”

No ano passado, a Generate.design participou de mais de cem obras, que variaram de condomínios residenciais a data centers interessados em reduzir sua pegada de carbono.

O denominador comum de todas essas iniciativas é o desejo de construir utilizando elementos mais sustentáveis. De acordo com os cálculos da empresa, a opção madeireira oferece uma redução de cerca de 30% nas emissões em comparação ao concreto. Além disso, ao considerar sua futura reutilização, o saldo final do edifício pode se tornar carbono negativo.

“Edifícios erguidos com CLT ou MLC sequestram carbono, armazenando-o nas fibras da estrutura durante toda a vida útil do imóvel”, explica William Richards, diretor editorial e cofundador da agência de desenvolvimento de marcas Team Three.

“Eles representam uma fração do peso de prédios feitos com os materiais convencionais. Sendo painéis pré-fabricados, podem ser montados em muito menos tempo do que estruturas de cimento, reduzindo assim o carbono incorporado. Boa parte das peças empregadas também pode ser reaproveitada ou reciclada em 20, 30 ou 50 anos, caso se decida que a edificação chegou ao seu limite.”

Embora a maioria das obras com esse sistema seja de grande escala, Richards escreve sobre as vantagens ecológicas da opção em residências unifamiliares, apontando-a como uma solução mais resistente que o aço e capaz de mitigar os desafios climáticos. O livro Against the Grain: Mass Timber in the Home (Contra a Corrente: A Madeira Engenheirada no Lar, em tradução livre) é mais uma evidência do valor atribuído à origem da matéria-prima e à logística que ela percorre até se transformar em moradia.

Alguns incorporadores já analisam como o recurso contribui para o bem-estar dos moradores ao proporcionar um ambiente biofílico, capaz de melhorar a frequência cardíaca e as funções cognitivas de quem o habita.

A ascensão do design biofílico — o uso de produtos e texturas para criar uma conexão orgânica com a natureza — é outra área de expansão para a madeira estrutural. Esse conceito arquitetônico possui benefícios cientificamente comprovados. Um estudo de 2007 revelou que a exposição a ambientes amadeirados pode:

  • Reduzir a pressão arterial em 10%
  • Diminuir os batimentos cardíacos em 6%
  • Aliviar os níveis de estresse em 15%

Além disso, uma pesquisa de 2008 descobriu que o material contribui para um melhor desempenho intelectual dos residentes. Os elementos da biofilia melhoram as funções cerebrais em cerca de 8% e aumentam as emoções positivas em 12%. Outros dois levantamentos posteriores corroboraram essas descobertas, apontando uma redução de até 12% na resposta ao estresse e um salto de 15% na performance cognitiva.

A fabricante Mercer faz questão de destacar a aparência natural e a textura tátil da madeira em seus empreendimentos para capitalizar sobre esses princípios.

A companhia tem utilizado a tecnologia CLT em diversos projetos residenciais pelos Estados Unidos, incluindo um complexo habitacional de oito andares em Portland e um loteamento de três pavimentos atualmente em andamento na cidade de Des Moines.

Esses edifícios se beneficiarão da capacidade da madeira de atuar como um sumidouro de carbono, ajudando a mitigar o aquecimento global com fontes renováveis.

A alternativa também oferece propriedades naturais de isolamento térmico, que, em última análise, derrubam os custos operacionais com ar-condicionado e calefação. A Mercer constatou que é possível entregar um desempenho e uma durabilidade totalmente equiparáveis aos do mercado cimenteiro e siderúrgico.

Contudo, se os ganhos ambientais são generosos, o upside financeiro também é.

O modelo de negócios do setor

Uma incorporadora baseada em Bellevue, Washington, liderada pela organização DASH (Downtown Action to Save Housing), apresentou um projeto para um terreno de aproximadamente 32.375 metros quadrados que abrigará cinco torres residenciais de madeira engenheirada.

A área fará parte do EverGlen Village, uma comunidade de uso misto (mixed-use) projetada para estabelecer um novo padrão no mercado de habitação, fornecendo mais de 1.000 lares econômicos para idosos.

O setor enfrentou, historicamente, restrições nos planos diretores e códigos de obras que limitavam a verticalização dos prédios — o mais alto atualmente em operação é o The Ascent, em Milwaukee, com 25 andares.

Uhlenbrock observa que, apesar disso, os landlords (proprietários) conseguem cobrar um prêmio devido à estética sofisticada dos edifícios sustentáveis, o que lhes permite exigir aluguéis mais caros.
Mas nem todo mundo no mercado imobiliário vê apenas o lado positivo na expansão dessa novidade

Ceticismo no mercado

Embora a demanda por materiais verdes seja crescente, Gareth Hayes, sócio sênior da empresa de pesquisa e consultoria estratégica Roland Berger, afirma que o foco de adoção está majoritariamente restrito às residências de alto padrão (high-end).

E uma alternativa ecológica da qual ele permanece cético é exatamente a madeira em massa.
“Existe um ágio de preço em relação ao ‘aço verde’, então é possível alcançar uma performance ambiental mais eficiente do ponto de vista de custos usando metal em vez da madeira engenheirada”, argumentou Hayes. “Com metalurgia e concreto, a incorporadora pode construir de forma mais adensada e com gabaritos mais altos. Eu entendo a lógica e o produto tem o seu lugar, mas, em termos de sustentabilidade pura, enquanto houver conteúdo reciclado no aço e no cimento, o VGV final terá uma estrutura de construção mais sustentável.”

A legislação urbana de diferentes praças também continua sendo um entrave à adoção da tecnologia. A título de exemplo, embora existam construções em andamento na Flórida, a Comissão de Construção do estado rejeitou recentemente 22 disposições em seu código de obras que buscavam facilitar os licenciamentos para essa vertente construtiva.

O futuro permanece promissor

A consultoria Mark & Spark Solutions relatou, em maio de 2026, que o mercado dessa técnica construtiva foi avaliado em US$ 390 milhões (cerca de R$ 1,99 bilhão) em 2025.

Além disso, projeta-se que novas regulamentações para restrição de carbono e flexibilizações nos planos diretores locais impulsionarão uma taxa de crescimento anual (CAGR) de 13,1%, atingindo um valuation setorial da ordem de US$ 1,07 bilhão (aproximadamente R$ 5,46 bilhões) até 2033.

Como métrica de comparação: em 2009, existiam apenas três canteiros de obras desse tipo operando nos EUA. Hoje, a organização WoodWorks monitora 2.833 projetos totalmente entregues ou em andamento. Trata-se de um salto vertiginoso de quase 1.000 vezes em um intervalo inferior a duas décadas.

Essa evolução entregará ao mercado espaços de moradia e trabalho que estimulam nosso sistema neurológico e a qualidade de vida. Ao mesmo tempo em que a escalabilidade da madeira engenheirada atua mitigando os riscos de desastres climáticos que ameaçam grande parte da infraestrutura urbana.
Dito isso, as margens e tendências tornam justo prever um horizonte de negócios extremamente otimista para o ativo.

Leia mais em: https://forbes.com.br/forbes-money/forbes-real-estate/2026/08/madeira-engenheirada-mercado-imobiliario/

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