O Aeroporto de Portland expandiu seu terminal central com madeira engenheirada e ferramentas digitais, dobrando a área sem aumentar o consumo de energia. O projeto, apresentado em evento em São Paulo, destaca a sustentabilidade na construção moderna.

A expansão do Aeroporto Internacional de Portland, nos Estados Unidos, utilizou cobertura em madeira engenheirada, vigas metálicas e colunas em formato Y preenchidas com concreto. Essa estrutura foi projetada para proteger contra o fogo e permitir a duplicação da capacidade do terminal central sem aumentar o consumo de energia. O projeto da ZGF Architects foi apresentado pelo arquiteto Bráulio Baptista, sócio da empresa, durante o Seminário AsBEA-SP, que faz parte do Modern Construction Show em São Paulo.

O complexo de Portland, considerado um dos melhores aeroportos dos EUA, possui 12 prédios e cerca de 100 mil m² de área. A arquitetura buscou integrar a paisagem local, enquanto a estrutura foi desenhada para aguentar terremotos, permitindo que a cobertura se mova independentemente dos prédios em caso de tremor de terra. Além de ser resistente, a expansão dobrou a área útil do aeroporto sem aumentar a conta de luz.

  • O projeto reduziu a necessidade de novas paredes de suporte, substituindo 670 colunas antigas por apenas 34 novas.
  • Softwares digitais como Revit e Rhino foram usados para otimizar a fabricação, reduzindo o número de peças únicas por módulo de 31 para 7.
  • A cobertura foi desenhada para isolar a estrutura de possíveis danos causados por terremotos na região.
  • O uso de madeira engenheirada substitui materiais tradicionais e menos sustentáveis, como cimento e aço.
  • O evento que apresentou o projeto é gratuito e focado em construção industrializada e sustentável.

O desenvolvimento da obra utilizou softwares como Revit, Rhino e Grasshopper, adotando a metodologia Design for Manufacturing and Assembly (DFMA). Essa abordagem foca em otimizar a fabricação e a montagem das peças. O resultado foi a redução de 31 para apenas sete perfis únicos necessários por módulo da estrutura. Na base da construção, 670 colunas existentes foram substituídas por 34 novas, e a solução eliminou a necessidade de construir novas paredes de cisalhamento, simplificando o processo construtivo.

Mudanças climáticas influenciam o planejamento urbano em São Paulo

As condições climáticas e o território de São Paulo estão sendo considerados no planejamento de habitação e desenvolvimento urbano. Maria Cláudia Pereira de Souza, diretora de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), apresentou o Plano Estadual de Desenvolvimento Urbano e Habitação. O plano leva em conta desafios como o aumento das temperaturas, ondas de calor, incêndios e a falta de água.

Entre as novas iniciativas está o uso das ferramentas C-Carbon e C-Hídrica, criadas em parceria com o SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo). Essas ferramentas avaliam empreendimentos habitacionais de interesse social. Maria Cláudia destacou que a CDHU está entre as primeiras instituições a usar essas tecnologias nesse segmento, buscando ajudar a melhorar seus indicadores.

José Renato Nalini, secretário executivo de Mudanças Climáticas da Prefeitura de São Paulo, avaliou que a escolha de materiais com menor impacto ambiental é essencial para a transformação da construção civil. Ele destacou o potencial de insumos cuja fabricação gera menos poluição. Nós temos hoje a madeira engenheirada, que substitui com muita eficiência materiais tradicionais como cimento, concreto, ferro, aço e vidro, exemplificou.

Para Nalini, a construção precisa incorporar critérios estéticos, ambientais e de resistência (resiliência), tornando as cidades mais agradáveis e preparadas para o clima. A emergência climática existe e precisamos chamar a atenção dos empreendedores, jovens arquitetos e engenheiros para não repetir essa mesmice de multiplicação de edifícios todos iguais. Nossa missão é tornar as cidades brasileiras cada vez mais agradáveis, resilientes e sustentáveis, frisou.

O papel do projeto na performance ambiental

As decisões tomadas na fase de projeto podem determinar até 90% da performance de uma edificação, tanto no uso quanto na construção. Giuliano Polito, CEO da Brazilian Host, afirmou que o arquiteto é o elo fundamental para conectar a ideia do empreendimento às estratégias de industrialização e aos resultados ambientais. Embora a etapa de projeto represente cerca de 5% da pegada de carbono total, ele ressaltou que é nesse momento que a maior parte das decisões que definem o impacto é tomada. A construção industrializada abre muitas oportunidades. Ela, por si só, não é uma fórmula mágica, mas permite uma série de ganhos, explicou.

A Universidade de São Paulo (USP) atua em transformar dados científicos em informações para políticas públicas. Denise Helena Duarte, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), citou o projeto Sampa Adapta. É uma cooperação técnica que reúne pesquisadores da USP e a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente para monitorar temperatura e umidade na cidade.

O projeto utiliza 25 sensores instalados em áreas que normalmente não são monitoradas, incluindo regiões periféricas e territórios informais. A iniciativa também adota o conceito de ciência cidadã, onde moradores, professores e agentes de saúde atuam como guardiões dos equipamentos instalados em suas comunidades, contribuindo com os dados.

Não existe um sistema construtivo único ideal

Os especialistas concluíram que não existe um sistema construtivo ideal para todos os empreendimentos. A escolha depende das características e demandas de cada projeto e, cada vez mais, combina diferentes tecnologias. Essa foi a principal conclusão do Painel Concreto, madeira ou aço existe um sistema ideal, realizado durante o Modern Construction Show.

Especialistas em concreto, aço e madeira apresentaram exemplos de como a combinação de sistemas amplia as possibilidades da industrialização. Íria Doniak, presidente executiva da Abcic (Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto), comparou projetos na Áustria e no Brasil, incluindo o Parque da Cidade, em São Paulo, e o Henkel Inspiration Center Latam, em Jundiaí.

Nicolaos Theodorakis, fundador e CEO da Noatech, destacou a relação entre madeira engenheirada, eficiência na construção e redução de carbono. Ele apresentou o método Noah, que tem o potencial de reduzir em até 50% o prazo das obras. Já José Augusto P. Cordeiro, vice-presidente de Estruturas Metálicas da ABCEM (Associação Brasileira da Construção Metálica), ressaltou que a definição do sistema deve partir das necessidades do empreendimento e ser considerada desde as primeiras etapas.

Tecnologia e sustentabilidade no ciclo de vida do edifício

Ainda existe uma diferença significativa entre o desempenho estimado no projeto e o comportamento real dos edifícios durante a operação. Segundo Alex Takaoka, CTO da Valor da Água | VR Tools, tecnologias como gêmeos digitais, telemetria e modelos preditivos permitem acompanhar o uso do empreendimento. Isso gera informações para orientar ajustes contínuos nos sistemas. Ou seja, é preciso incorporar a tecnologia a todo o ciclo de vida, considerando como o edifício será utilizado por 30 ou 50 anos. O cruzamento de dados de ocupação com informações climáticas, por exemplo, permite ajustar a climatização conforme a necessidade de cada ambiente, reduzindo o consumo de energia e água.

Raquel Sanches, diretora de Projetos da CA2 Consultores, mostrou como as ferramentas disponíveis no mercado permitem desenvolver projetos com referências, criando um processo cíclico de validação. A consequência é que direcionamos decisões para o projeto e a obra. Aplicando esse conceito à construção industrializada, passamos a olhar para a sustentabilidade da edificação desde o anteprojeto, desde o momento de decisão pelo processo construtivo a ser aplicado, explicou.

A sustentabilidade de um edifício começa nas decisões de projeto, mas o projeto sozinho não comprova seu desempenho. José Bonivento, gerente de Desenvolvimento de Negócios da Sintali, afirmou que a certificação tem o papel de organizar essa complexidade, orientar o projeto, medir resultados e verificar o cumprimento das metas. A certificação é a prova de que as decisões dos arquitetos sobre o projeto geram valor, afirmou Bonivento.

Ferramentas gratuitas para calcular a pegada de carbono

Ferramentas disponíveis gratuitamente no mercado, voltadas ao cálculo de Gases de Efeito Estufa, pegada de carbono e utilização de recursos hídricos, têm contribuído para a construção de projetos orientados a desempenho. Elas organizam e orientam o serviço de arquitetura e engenharia, além da etiquetagem de projetos sustentáveis, públicos ou privados.

Durante os Seminários AsBEA-SP, Lilian Sarrouf (Comasp/Sinduscon-SP), Clarice Degani (CBCS) e Lucas Melchiori Pereira (FAU/USP) explicaram de modo didático os mecanismos e políticas públicas existentes. Entre eles estão a Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB) e seu impacto na construção civil, as calculadoras cecarbon e cehidrica, o sistema Sidac, PBE Edifica e BIPc.

O Modern Construction Show, uma realização da Francal, conta com a ABCEM, Abcic e Abracime como entidades correalizadoras. O evento ocorre de 29 de setembro a 1 de outubro de 2026, das 13h às 20h, no Distrito Anhembi, em São Paulo. O credenciamento é gratuito.

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